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Saturday, June 15, 2013

CONTINUANDO EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS...

Antes de continuar com a segunda parte da postagem de hoje, gostaria de mostrar, a seguir, mais algumas fotos da casa onde moramos em São José dos Campos por ocasião de um grande jantar festivo que oferecemos.


Continuando com o post....

No tempo em que moramos em São José dos Campos, íamos sempre durante as férias de Jouko para a Finlândia. Em uma dessas vezes, as crianças ficaram com minha irmã Regina e duas pessoas que trabalhavam em minha casa. Viajei um pouco preocupada porque Adriana estava tossindo muito. Antes de nossa saída para o aeroporto, resolvi passar na farmácia e fazer outro furo na orelha para colocar um brinco tipo argola, cravejado de safiras. O funcionário da farmácia falou-me que iria pôr um pouco de anestesia e colocaria o brinco já desinfetado direto em minha orelha. No aeroporto, antes do embarque, sentia que a orelha estava incomodando. Decolamos de São Paulo com destino a Paris. Durante o vôo, a cada hora, sentia mais dores e, em determinado momento, Jouko olhou para mim e disse:

– Maria, sua orelha está inchada.

Chamamos a aeromoça e pedimos um analgésico, pois esperaríamos ainda algumas horas até descer em Paris. Foi um verdadeiro pesadelo. Cada vez sentia mais dores no lado do rosto, na cabeça e na orelha, que estava intocável. A aeromoça estava também preocupada, mas pedia calma e tentava aliviar as dores com compressas quentes. Do aeroporto, fui direto para a emergência, e o médico falou que minha orelha estava infectada e que dei muita sorte de não ter adquirido tétano. O fato de estar dentro de uma cabine de avião, voando, intensificou o processo de infecção e, se o voo fosse mais longo, poderia ter sido pior. O sufoco foi retirar aquele brinco da orelha com uma infecção daquelas. Fui medicada e esperei algumas horas para continuar a viagem até Helsinki.

Alguns dias depois, recebi um telefonema aflito de Regina, falando que Adriana havia sido internada em razão de uma pneumonia. O estado dela agravou-se porque o médico que a atendeu pela primeira vez era um incompetente, diagnosticando uma hepatite. Quando Regina iniciou a medicação, Adriana piorou, tendo que ser internada às pressas em uma clínica infantil cujo dono era nosso vizinho. Regina não pensou duas vezes, procurou o tal médico incompetente, pegou-o pela gravata e deu-lhe um soco no nariz, dizendo-lhe que estava na profissão errada. Ela estava muito transtornada porque, pelo fato de eu estar a milhares de quilômetros de distância, sentia-se responsável por tudo. Quando recebi o telefonema, fiquei desesperada e, no dia seguinte, tomei o primeiro voo para São Paulo. Voltei mesmo sabendo que ela estava bem assistida e que iria se recuperar. Acho que fiquei assim em função do trauma que havia sofrido por ter me separado deles algum tempo antes. No aeroporto, Adelaide, a secretária de Jouko, estava me esperando. Era uma grande amiga, estava sempre pronta para ajudar no que fosse preciso. Fomos direto para o hospital e, alguns dias depois, minha filha já estava em casa. Dessa vez, começamos a controlá-la, uma vez que o motivo de ter adquirido essa pneumonia foi o hábito que tinha de sair da piscina e não trocar de roupa e, às vezes, dormir de maiô. Muitas vezes, quando as crianças não estavam com sono, ficavam brincando na piscina até altas horas.

Na Páscoa de 1986, fomos junto com Regina e seu namorado passar alguns dias na Pousada do Rio Quente em Goiás. Saímos de São José de carro a fim de tomar o ônibus da excursão na Praça da República. Teríamos que estar lá antes das oito da noite. Mas, perto das oito, ainda estávamos em Guarulhos e ainda passaríamos pela Marginal Tietê para chegar até lá. Precisaríamos de pelo menos uma hora e meia a mais. Paramos em um posto de gasolina e ligamos para a empresa que organizou a excursão, dizendo que estávamos atrasados pelos menos duas horas. Informaram-nos que não poderiam esperar e pediram que seguíssemos direto para Ribeirão Preto. Disseram o nome do lugar em que o ônibus estaria a nossa espera. Quando chegamos lá, depois que guardamos o carro no posto, fomos para o ônibus, que estava nos esperando por quase uma hora. Estávamos um pouco envergonhados por nosso atraso, mas, quando entramos, todos se levantaram e começaram a cantar, dando-nos as boas-vindas.

Pousada do Rio Quente, Goiás. Foto hosted on Flickr by Anrrie
Pousada do Rio Quente. Foto hosted on Flickr by Dan's World of  Pictures
Pousada do Rio Quente. Foto hosted on Flickr by Gerson Daniel
Pousada do Rio Quente. Foto hosted on Flickr by Dan's World of Pictures
  
Pousada do Rio Quente. Foto hosted on Flickr by duaspolegadas
O hotel era lindo, ficava em uma área vulcânica muito grande, com piscinas de águas quentes, poços e rios. Na chegada, compramos um colar que serviria como pagamento do que usássemos. A alimentação, que era servida quatro vezes ao dia, fazia parte do pacote. Lembro-me de que estava fazendo tratamento de uma cistite, e essa viagem foi o melhor remédio para mim. Talvez a água tenha me ajudado.

Passados quase dois anos, minha felicidade era completa. Tinha também muitos amigos, uma vida social intensa, íamos sempre a São Paulo para teatros, restaurantes e eventos, como por exemplo, a comemoração do Dia da Independência da Finlândia, que era sempre comemorada na cobertura de um hotel de luxo. Minhas irmãs e sobrinhas iam sempre passar temporadas em São José, e minha avó materna já estava morando conosco. Como sempre tinha visitas em casa, principalmente de Salvador ou do Conde, fui levar, com uma dessas visitas, Jouko ao Aeroporto de Congonhas, pois ele tinha uma palestra em uma cidade mineira chamada Araxá. Quando chegamos ao aeroporto, seu avião já havia decolado. Como ele não tinha tempo a perder, sem pensar duas vezes, dirigiu-se a uma empresa de táxi aéreo, alugou um avião e seguiu para o seu destino. Essa pessoa do Conde que estava comigo ficou boquiaberta, mas disse-lhe que quem pagava por tudo isso era a empresa de meu marido. Essa mulher ficou hospedada em minha casa acompanhada de sua tia, prima e da filha da prima. Levei-as para passear em São Paulo, Campos do Jordão, Aparecida do Norte, e ainda fomos a outros lugares. Quando ela retornou ao Conde, nem mencionou que me conhecia.

Araxá, Minas Gerais

Campos do Jordão, SP
Aparecida do Norte, SP
Certa vez, combinei com uma amiga que residia em São Paulo de assistirmos à peça Evita que estava sendo apresentada no Palace. Como Jouko estava viajando e eu queria muito ver a peça, resolvi ir sozinha e encontrar com ela no teatro. Eu estava com um vestido de rendas azuis bordado de pedras, sapatos pretos e o cabelo muito bem arrumado. Tinha também feito a maquiagem no salão. Estava dirigindo na Via Trabalhadores, por volta das quatro da tarde, bem tranquila, por já estar acostumada a percorrer esses mais de oitenta quilômetros que ligam São José ao centro de São Paulo,passando por ali pelo menos uma vez por semana. Percebi, então, que, atrás de mim, vinha um monza azul-marinho, fazendo insistentemente um sinal de luz. Ultrapassou-me, mas não pude identificar a pessoa que estava dirigindo. Quando parei no pedágio, o funcionário disse-me que alguém já havia pagado por mim. Mais na frente, vi o mesmo carro e o ultrapassei, pois queria saber quem era a pessoa. Pensei que talvez fosse Glória, uma amiga de São José, porque o carro parecia com o dela. Mas não consegui identificar quem dirigia. O carro deu-me sinal de luz para parar, então, resolvi obedecer para acabar de uma vez com essa brincadeira que estava me intrigando. Hoje, com certeza, não faria mais isso. Quando a pessoa desceu do carro, percebi que não era ninguém conhecido.Naquele momento, dei-me conta do erro que cometi ao ter parado. O homem veio em minha direção e, quando chegou perto, ficou realmente surpreso porque havia me confundido com outra pessoa. Pediu desculpas e foi embora.

No carnaval de l987, decidimos ir para Foz do Iguaçu. Fomos de excursão porque havíamos gostado da última que havíamos feito e, dessa vez, levamos Ricardo conosco. Ele era o mascote da turma por ser a única criança no grupo.

Cataratas do Iguaçu, Foz do Iguaçu/PR. Foto via skyscrapercity

Cataratas do Iguaçu. Foto via skyscrapercity
Foz do Iguaçu, Paraná
Eu e Ricardo nas Cataratas do Iguaçu
 
O ônibus era confortável, tinha ar condicionado, a turma e os guias eram bem animados. Resolvemos atravessar a fronteira e fomos às compras no lado da Argentina. Jouko foi comprar um casaco de couro, e eu fui para outra loja comprar umas blusas de caxemira. Separei duas blusas e perguntei à vendedora, caso eu levasse as duas, quanto custaria. Qual não foi minha surpresa quando ela me respondeu:

– Senhora, as duas blusas já estão dentro de sua sacola, e dê-me imediatamente o dinheiro antes que o dono perceba.

Olhei surpresa e assustada para ela, dizendo:

– Com que rapidez que você as colocou em minha sacola!

– Não importa. – disse-me. – Se a senhora não aceitar, digo ao dono que as roubou.

É lógico que dei o dinheiro para ela, tremendo de medo. O que queria no momento era sair dali imediatamente. Eu já estava na rua, a alguns metros da loja, quando ouvi uma pessoa chamando-me:

– Senhora, senhora!

Quando olhei para trás, vinha vindo o dono da loja. Tinha certeza de que era por causa das blusas.

– Senhora, aqui está sua máquina fotográfica que esqueceu em cima do balcão.

Fui encontrar-me com Jouko, contei-lhe o que havia acontecido e de jeito nenhum quis comprar mais alguma coisa. Já dentro do ônibus, duas pessoas também contaram a mesma história, haviam tido a mesma experiência. À noite, fomos ao cassino e, no outro dia, fomos visitar as Cataratas do Iguaçu. Nos dias restantes, ficamos no hotel curtindo a piscina.

Outra viagem que fizemos foi para Penedo, uma cidade com uma colônia de finlandeses situada entre São Paulo e Rio de Janeiro. Conhecemos famílias finlandesas que moravam lá por mais de trinta anos. Elas conservavam a cultura de seu país através dos restaurantes com as comidas típicas, saunas e até um clube onde mostravam, aos sábados, a música e as danças folclóricas da Finlândia. Havia também um ateliê onde eram vendidos quadros em tapeçaria feitos por uma artista finlandesa. Durante o tempo em que moramos em São José dos Campos, fomos três vezes passar finais de semanas em Penedo. Jouko gostava de ir, principalmente, para matar as saudades da sauna típica de seu país.

Em Penedo, RJ. Foto Flickr by violinha
Em Penedo, RJ. Foto Flickr by violinha
Penedo, RJ - colônia Finlandesa. Foto via sckyscrapercity
colônia finlandesa, em Penedo, RJ. Foto skyscrapercity

Detalhe das placas das ruas, na colônia finlandesa - Penedo/RJ.  Foto skyscrapercity

Em julho de l987, Jouko não pôde ir de férias para a Finlândia por causa dos compromissos no trabalho. Precisei ir sozinha, pois nossa casa naquele país tinha permanecido fechada durante todo o tempo em que estávamos no Brasil, muito embora seu irmão tivesse a chave para, de vez em quando, ir cuidar das plantas e checar se estava tudo em ordem. Jouko foi me levar ao aeroporto junto com Ricardo. Quando lá chegamos, havia uma multidão reunida em torno de uma pessoa que estava dando entrevistas para a televisão. Meu filho viu que era Ayrton Senna e foi correndo pedir-lhe um autógrafo. Qual não foi minha surpresa, durante a viagem, quando percebi que quem estava sentado na poltrona ao meu lado era o próprio Ayrton Senna! Hoje me arrependo de não ter lhe pedido também um autógrafo.

E para encerrar, por hoje, uma homenagem ao nosso Ayrton Senna, do Brasil!




Friday, June 14, 2013

UM NOVO COMEÇO EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

Voamos para Salvador, buscamos as crianças e fomos morar em São José dos Campos, no Estado de São Paulo, em uma casa eleita, na época, segundo uma revista famosa, uma das dez mais bonitas da cidade. Tinha 400 metros quadrados de área construída, piscina, um grande jardim, quatro suítes, quatro salas, copa, cozinha, dois banheiros sociais e dependências. Os lustres haviam sido feitos por um artesão de Campos do Jordão.

São José dos Campos, SP - Foto Adenir Britto/PMSJC
Distrito de São Francisco Xavier, em São José dos Campos. Foto Adenir Britto/PMSJC
Paço Municipal, São José dos Campos. Foto Adenir Britto/PMSJC
Mercado Municipal, São José dos Campos. Foto Antonio Basílio/PMSJC
Parque Santos Dummont  - Zona Central de São José dos Campos - Avião bandeirantes, um dos primeiros sucessos de venda da Embraer. Foto: Observador SJC by skyscrapercity
São José dos Campos - Vidoca  Foto: Observador SJC by skyscrapercity
Mandei buscar para morar conosco minha irmã mais nova, que foi uma das que cuidou de meus filhos quando eu estava longe. Moravam também com a gente uma moça que estava comigo desde que conheci Jouko e uma cozinheira.

Consegui imediatamente um ótimo advogado para cuidar de meu caso. 

Passados alguns meses, meu ex-marido, para minha surpresa, telefonou-me de Salvador. Ele estava vivendo com outra pessoa e já tinha um filho. Perguntou-me se podia levar as crianças ao Rio Grande do Sul, para onde estava indo de carro, a fim de que passassem duas semanas com ele. Eu lhe falei que responderia depois. Consultei meu advogado, que me orientou a permitir isso contanto que, na entrega das crianças, meu advogado estivesse presente com uma testemunha.

No dia da viagem, convidei meu ex-marido, junto com sua nova família, para jantar em minha casa. Foi um encontro amistoso, apesar do que ele havia feito comigo. Não importavam mais essas coisas porque finalmente eu havia encontrado a felicidade. Jouko também foi muito gentil com eles. Correu tudo bem no jantar, que tinha, em média, dez pessoas, inclusive meu advogado e um casal de finlandeses. O pai de Anapaula, Adriana e Ricardo finalmente pôde ver com os próprios olhos a qualidade de vida que os filhos estavam tendo.

As crianças estavam indo bem na escola, eu tinha amizade com toda a vizinhança, e sempre nos reuníamos para um jantar ou outro tipo de evento. 

Minha mãe, naquela época, já estava muito doente e, a cada dia, piorava. Mas, apesar disso, tínhamos esperanças de que melhorasse porque ainda era jovem, tinha apenas cinquenta e quatro anos. Em uma madrugada, Ana, a babá das crianças, acordou-me dizendo:

– Dona Maria José, eu acordei com alguém batendo na porta de meu quarto. 

Quando vi que não era ninguém, fiquei com medo e queria ficar um pouco aqui em seu quarto.

Ana era como se fosse da família. Na verdade, ela não estava bem, estava pálida e muito nervosa.

– Tente se acalmar, pegue seu colchão e pode dormir aqui comigo. – eu disse a ela.

Passados alguns minutos, o telefone tocou, e era meu cunhado dando a triste notícia da morte de mamãe. Eram 4h da manhã. O desespero e a dor tomaram conta de mim. Meu marido estava com um projeto em Porto Trombetas, no Pará.

Esperei o dia amanhecer e telefonei para Harry, outro diretor da empresa, que estava, no momento, em São José dos Campos. Também liguei para todas as empresas aéreas, começando aí meu pesadelo para conseguir uma vaga em algum voo para Salvador. Era sexta-feira de carnaval. Sim, no meu desespero, não havia me dado conta disso. Por sorte, consegui uma vaga em um voo que saía às 10h30min. Fiz a reserva e disse que estaria no aeroporto antes do horário para pagar o bilhete. Às 7h, o finlandês para quem eu havia ligado antes chegou a minha casa com carro e motorista para levar-me ao Aeroporto de Cumbica em São Paulo. Saímos às 7h30min de São José dos Campos, com a previsão de chegar ao aeroporto às 9h. Por infelicidade, houve um grave acidente na Via Dutra, provocando um engarrafamento quilométrico. Cheguei atrasada, e minha vaga já havia sido preenchida por um dos inúmeros passageiros da lista de espera. Disse ao funcionário com quem eu havia falado antes ao telefone:

– Não entendi por que fez isso! Falei para você do terrível acontecido e preciso dessa vaga agora!

Ele me respondeu:

– Infelizmente, nessa época, existem muitas pessoas que fazem esse tipo de teatro para passar o carnaval na Bahia.

Olhei para ele e, em vez de sentir raiva, senti foi pena porque era tão limitado que foi incapaz de ler em minha expressão a dor que eu estava sentido.

Comecei a procurar em outras empresas, tentando falar com chefes ou pessoas que pudessem me ajudar ou pelo menos acreditar no que eu estava falando. Não conseguia. Meu desespero aumentou, pois as horas passavam-se e o sepultamento seria às 16h. Estava sentada dentro do aeroporto, sem saber o que fazer, já havia tentado de tudo. Até amigas de São José estavam tentando me ajudar. Foi quando uma senhora sentou-se ao meu lado e disse-me:

– Estou lhe observando faz muito tempo e vejo que chora muito, e parece também que está tendo problemas para embarcar, não é mesmo?

– Sim. – respondi-lhe 

– Posso fazer alguma coisa? – perguntou ela.

– Agradeço-lhe muito, senhora, mas é provável que não possa me ajudar.

E ela continuou:

– Por que não? Nada para Deus é impossível. Se confiar em mim, dê-me o dinheiro de seu bilhete porque vou tentar uma vaga.

E foi o que fiz. Depois que ela saiu, pensei que, naquele momento, também tinha perdido o dinheiro. Eu estava de cabeça baixa com minha dor quando vi, em minha frente, a mesma senhora trazendo nas mãos o bilhete aéreo e dizendo:

– Apresse-se porque o embarque de seu voo já está sendo feito. Aí vem vindo a aeromoça que irá tomar conta da senhora até Salvador. Ela sabe de seu problema.

Só tive tempo de agradecer-lhe, perguntar-lhe seu nome e telefone. Enquanto procurava o papel e a caneta, dei-me conta de que essa senhora havia desaparecido. Até hoje isso ainda é um mistério para mim.

Passava do meio-dia quando decolamos de São Paulo em um voo direto para Salvador. Em um dado momento, percebi que havia, no fundo do avião, uma confusão de pessoas falando alto. Os sinais luminosos de não fumar e apertar cintos acenderam-se, e o comandante pedia que as pessoas permanecessem sentadas e não fumassem. Ficamos sabendo que um homem, acompanhado da esposa e da filha de apenas nove meses, havia estourado um vidro de lança-perfume, espalhando por toda a aeronave uma fumaça e um cheiro forte de éter. Sentimos os olhos e o nariz arderem. Pelo jeito, esse rapaz irresponsável estava drogado. Pousamos, uma hora depois, no Aeroporto Dois de Julho sem nenhum problema. Ficamos sabendo depois que corríamos risco de vida. O tal homem foi preso ainda na escada do avião.

Fui direto para o cemitério onde estava sendo velado o corpo de minha mãe. 

Eu ainda estava em choque porque, mesmo ela estando doente, ninguém esperava que aquilo viesse a acontecer. No velório, seu semblante era tão sereno, parecia que dormia. Naquele rosto moreno, transparecia a beleza de uma mulher extremamente bondosa, uma mãe exemplar que, com muito amor e dignidade, criou nove filhos, sendo um adotado. Era uma pessoa muito querida. Lembro-me de que, quando eu era pequena, ela pegava escondido comida do armazém de papai, na Páscoa, para dar aos pobres, sem contar que em casa havia sempre pessoas carentes para comer.

Dois dias depois, retornei a São Paulo, levando meu pai comigo, pois ele estava sensivelmente abalado. Ele iria morar conosco durante o tempo em que eu permanecesse no Brasil. Quando retornasse à Finlândia, eu o deixaria protegido.

Os dias se passavam e a bebida passou a ser a companheira inseparável de meu pai. Não sabíamos mais o que fazer. Procurei todo tipo de ajuda sem nenhum resultado. Meu irmão, João, que morava no Sul, foi passar o Natal conosco em São José e teve a ideia de levá-lo para o Rio Grande do Sul para passarem alguns dias juntos. Talvez assim ele conseguisse parar de beber. 

Meu irmão, João Alves
Alguns meses depois, meu pai conheceu uma senhora e começaram a viver juntos. Ajudei, com muito gosto, a montar a casa deles. Talvez fosse disso que ele estivesse precisando, de uma companheira.

De vez em quando, Jouko vinha a São José passar uma ou duas semanas conosco. Eu nunca ia a seu encontro porque tinha medo de avião pequeno, a única forma de chegar ao local de seu trabalho. As crianças iam bem na escola. Adriana e Ricardo estudavam no Instituto São José, um colégio de freiras, e Anapaula, na Escola Monteiro Lobato. Eles tinham muitos amigos e acho que nem lembravam mais do tempo em que ficaram longe de mim e, graças a Deus, isso em nada influiu no comportamento deles, pelo contrário, eram crianças normais, saudáveis, estudiosas e felizes.

O processo contra meu ex-marido continuava. Dessa vez, com um bom advogado paulista, ele estava pleiteando a custódia definitiva das crianças para Jouko.

Certo dia, Adriana estava retornando da escola quando encontrou, na porta de casa, dois senhores. Um deles era meu advogado, e o outro era o juiz que estava cuidando do caso. O juiz virou-se para ela e perguntou:

– Quem é seu pai?

Ela repondeu:

– Meu pai é o Gordo!

Gordo era o nome carinhoso que eles deram para Jouko.

– Ah, sim? E seu pai de Salvador? Se você tivesse que escolher com quem morar definitavamente, quem escolheria?

– Lógico que com o Gordo! – respondeu.

O mesmo aconteceu com meus outros dois filhos, que também chegavam a nossa casa na mesma hora. Talvez o teste tivesse sido feito dessa forma para que as crianças não ensaiassem uma resposta. Teste também para Jouko que, no Pará, trabalhando, não sabia que meus filhos estavam lhe dando a nota máxima como pai, o que verdadeiramente ele era. Não demorou muito tempo para Jouko receber a custódia definitiva. Com essa decisão, as crianças passaram a ter todos os direitos de filhos perante a empresa de meu marido, como assistência médica, boas escolas, dentre outras vantagens.

Minha irmã gêmea, durante esse período, também passava bastante tempo comigo. No ano seguinte, na data de nosso aniversário, mandei buscar papai no Sul e preparei uma grande festa e uma grande surpresa para ele: Nós nos vestimos, maquiamos e penteamos igualmente, usamos as mesmas joias e os mesmos sapatos. Ficamos exatamente iguais como no tempo de nossa infância. Convidei muitas pessoas, contratei um bufê que se encarregou da comida, bebida e decoração da casa. Quando ficamos prontas, descemos as escadas da casa e encontramos na sala um pai extremamente emocionado e orgulhoso. Também, dessa vez, fomos confundidas várias vezes pelos convidados, principalmente pelos que não eram tão próximos, como Joaquim Bevilaccqua, o prefeito da cidade. A jornalista Maria Encarnação, do Jornal Vale Paraibano, divulgou o acontecimento. Na foto do jornal, ninguém sabia quem era quem, muitas pessoas telefonaram para perguntar.

Eu e minha irmã gêmea, Joselita, na data do nosso aniversário, uma surpresa para papai...